quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O relógio

Segue um dos meus contos, espero que gostem

                                O RELÓGIO



Uns diziam que ele veio de relógios antiquíssimos do sul da Suiça, outros, mais realistas, acreditavam que ele nasceu de uma velha linhagem de nobres franceses, mas, o certo, é que ninguém sabia de onde havia vindo aquele pequeno relógio de corda com traços dourados.
Sabe-se apenas que um rico e bondoso senhor o adotou, depois de o haver encontrado em meio à costumeira névoa londrina. Cuidou muito bem do pequenino, zelando para que não caísse em mãos erradas, isso deve ter durado uns dez anos, pois, certo dia, o velho não acordou.
A família do senhor recolheu todos seus pertences e enviou o caixote para Lisboa, onde morava o filho mais moço, com vinte e poucos anos, portando um bigode bem negro para parecer ter mais idade. Sem muito discutir, o jovem, apesar de um pouco abatido ao se lembrar do velho pai, se simpatizou pelo relógio e o adotou com um largo sorriso.
 Parecia que um havia sido feito para o outro, juntos conheceram o céu das noites portuguesas, francesas, espanholas... O pequeno relógio refletiu olhos claros, escuros, sorrisos encantadores, paisagens belíssimas, sendo dado de presente a uma dama de olhos esverdeados do norte da Itália.
Tudo andava perfeitamente, até que um senhor ranzinza daquele país, após discutir violentamente com a moça, o arremessou contra a parede, tentou pisoteá-lo, deixando alguns arranhões no tênue vidro.
Talvez o dourado houvesse perdido seu brilho e encanto, e o relógio foi mandado para a América em meio a muitas quinquilharias. Foi usado por muitos, desgastou-se com o ar quente das fábricas, mas, depois de um tempo, conseguiu tranquilidade ao ser comprado por um bom fazendeiro.
O ar das plantações de algodão era mais ameno e o desgaste, apesar de existir, compensava o prazer de estar ali sem tantas preocupações.
Refletiu o pacato ambiente por muito tempo, mas, sem muita explicação, começou a atrasar, o fazendeiro com um olhar misericordioso o guardou em um quartinho do casebre.
O tempo passava rápido, certo dia, um brilho de cor esmeralda, iluminou seu vidro. Os ponteiros estavam cada vez mais lentos, mas, aquela imagem ajudou o movimento a enrolar a corda um pouquinho, como se fosse um relógio novo, fazendo com que os ponteiros até se adiantassem um pouco.
O brilho não era o mesmo de anos atrás, mas ainda existia.
O relógio foi levado a pedidos daquela senhora a terras lusitanas, refletiu um bigode esbranquiçado iluminado por um sorriso jovial e o tempo, única coisa que não se pode deter, foi escapando por entre os dedos.

Um dia, o relógio parou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário